Mais de 2 mil famílias de pescadores artesanais estão impossibilitadas de trabalhar. Amex denuncia possível contaminação das águas e cobra ações emergenciais

A Associação Mãe dos Extrativistas da Reserva Extrativista de Canavieiras (Amex) protocolou um ofício no último dia 10 denunciando uma grave crise ambiental e social no Rio Pardo e em seus afluentes, Rio Salsa e Rio Patipe, no sul da Bahia. Após fortes chuvas nas cabeceiras da região, pescadores e pescadoras relatam que as águas estão escuras, com forte odor fétido e sinais de decomposição. A situação já provocou mortandade de peixes e crustáceos, inviabilizando a pesca e o extrativismo, atividades que sustentam mais de duas mil famílias no território.
De acordo com o documento e com vídeos divulgados por comunitários, os há uma grande quantidade de peixes e mariscos em fase de decomposição no rio, o que os torna impróprios para consumo e comercialização. A crise, que atinge diretamente as comunidades tradicionais da Resex, também acende um alerta para a saúde pública no município de Canavieiras, que pode ter o abastecimento de água novamente comprometido, como já ocorreu em episódios anteriores.
Em vídeo divulgado pela Amex, Carlinhos da Resex afirma que a contaminação “é causada pelo desmatamento de áreas úmidas e pela construção de grandes valas, que faz com que nesse período que a água sobe, essa matéria orgânica junto com várias outras coisas, né, resto de veneno e tal, desce para o estuário e mata os peixes.“ Além das famílias em insegurança alimentar, a liderança chama a atenção para o impacto econômico e turístico que a situação causa e cobra providências dos órgãos responsáveis.
A área afetada abrange territórios dos municípios de Canavieiras, Una e Belmonte, todos inseridos na Reserva Extrativista de Canavieiras, Unidade de Conservação Federal formalizada em 2006. Segundo o pescador R. C., a criação da reserva se deu “após vários anos de luta” das comunidades na região. Desde a sua criação a área é pressionada por setores do ramo da carcinicultura (criação de camarões) e da pecuária, atividades que vinham degradando o bioma e afetando a atividade econômica das famílias.
No ofício, a associação solicita com urgência a vistoria técnica e coleta de amostras da água para análise da qualidade ambiental, investigação das possíveis causas da contaminação, com atenção a impactos vindos de áreas acima do rio, apuração de responsabilidades ambientais, articulação entre órgãos ambientais e de proteção social para garantir doação de cestas básicas e água potável às famílias e e acompanhamento institucional da situação.

O documento foi encaminhado ao ICMBio, Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual, Inema, Casa Civil do Governo da Bahia, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.
A integridade ecológica dos rios e estuários da Resex de Canavieiras é fundamental para a manutenção dos modos de vida, da segurança alimentar e da economia das comunidades tradicionais e da economia da região. A demora no diagnóstico e nas ações pode agravar ainda mais os impactos ambientais e sociais já observados, como apontam as comunidades.


