RIO PARDO, UM RIO MARCADO PARA RESISTIR!

A Articulação Rio Pardo Vivo e Corrente realizou entre os dias 21 e 23 de novembro de 2025, nos estados de Minas Gerais e Bahia, a “Missão Rio Pardo: um rio marcado para resistir”. Este espaço foi construído por comunidades e organizações populares do Alto, Médio e Baixo Rio Pardo com o objetivo de promover o intercâmbio das experiências de luta, unificar as denúncias sobre os graves problemas socioambientais que assolam a bacia e, principalmente, fortalecer a articulação e a unidade entre as populações guardiãs dos territórios nesses dois estados.
Essa Missão celebrou os dez anos de existência da Articulação Rio Pardo, que nasceu em julho de 2015 em uma reunião no município de Canavieiras-BA, com o propósito de promover uma atualização crítica sobre a conjuntura e a situação de nossos corpos hídricos, buscando uma síntese coletiva sobre os principais desafios enfrentados pelo povo que vive e depende desta Bacia.
O encontro que deu origem à Articulação em 2015 ocorreu vinte e cinco anos após o lançamento do documentário “Rio Pardo: um rio marcado para morrer”, obra que já denunciava uma triste tendência para o rio e para suas comunidades, marcada pela construção de barragens, remoção de famílias sem indenização adequada, apropriação indevida das águas pelo latifúndio e pela monocultura de exportação, além da desigualdade no acesso à água, um direito humano fundamental.
Este momento foi crucial para nos reconhecermos como seres que habitam um mesmo corpo: o Rio Pardo, que nasce em Montezuma-MG, deságua em Canavieiras-BA e em seu trajeto é alimentado por centenas de afluentes e memórias. O encontro foi ainda mais importante para compreendermos que esse corpo, que garante a vida de milhares de famílias, se encontra doente, vítima de uma lógica de desenvolvimento destrutiva e antipopular.
A partir daí, muitos outros encontros foram realizados nos territórios, nas comunidades e nos municípios que compõem a Bacia. Diversas organizações articuladas e em luta denunciaram a expansão do monocultivo de eucalipto, a ameaça do mineroduto que pretende rasgar nossos territórios, o sequestro das águas para a grande irrigação, a especulação mineral, a gestão desigual das águas pelo Estado, entre tantas outras problemáticas que assolam esse grande corpo.
Todo o processo de articulação, formação e luta desenvolvido nos territórios demonstrou, com base na experiência das comunidades, que os desafios expostos no documentário há 35 anos atrás, não apenas não foram resolvidos, como se aprofundaram e ganharam novos elementos de contradição.
Em 2015, quando surgiu a Articulação Rio Pardo, haviam outorgas para o uso legal de 17 milhões de metros cúbicos da calha principal do rio. Quase 10 anos depois, em 2024, esse número avançou para 51 milhões de metros cúbicos, 413 outorgas em Minas Gerais e na Bahia, sendo a maioria para a irrigação de monocultivos para a exportação, especialmente o café e um crescente aumento no número de outorgas para as atividades relacionadas à mineração.
Essa política de concessões tem aprofundado a crise climática em curso e garantido o lucro de grandes empresas e do capital financeiro, enquanto prejudica o abastecimento hídrico no campo e na cidade, dificultando a produção da agricultura familiar que garante a alimentação de qualidade para nosso povo.
Por toda a bacia comunidades denunciam a dificuldade no acesso à água, a grilagem de terras públicas, o uso indiscriminado de agrotóxicos, o desmatamento, queimadas, o avanço da especulação e da atividade mineral, a poluição dos córregos, o poder público subordinado aos interesses privados entre tantas outras questões que estão comprometendo a vida das populações e da natureza.
Esse cenário desafiador revela uma verdade basilar para a luta dos povos e comunidades do Rio Pardo: se os problemas enfrentados pelo povo desta bacia partem de uma mesma estrutura, as soluções precisam, necessariamente, ser pensadas e construídas coletivamente entre todas essas populações. Somente a unidade das lutas entre geraizeiros, pescadores, marisqueiras, agricultores familiares, acampados e assentados da reforma agrária, trabalhadores urbanos, jovens e mulheres será capaz de reverter a sina desse rio que foi marcado para morrer.
As comunidades em luta enfrentam esses problemas através da organização popular com ações concretas de defesa do território, como o cercamento e o reflorestamento de nascentes, leis de iniciativa popular, gestão coletiva das águas, formação com as mulheres e a juventude, fortalecimento das práticas agroecológicas de produção e da articulação com diversos setores da sociedade.
É necessário um amplo trabalho de organização, formação, comunicação e luta para anunciar o acesso à água com um direito humano essencial, um bem comum da natureza que, portanto, não pode ser submetida à lógica capitalista que transforma tudo e todos em mercadoria. Nossa tarefa consiste em construir um debate permanente com a sociedade e formar redes locais, nacionais e internacionais para enfrentar com coragem a lógica espoliadora do atual modelo de desenvolvimento.
Assim, conclamamos todos e todas para a continuidade deste mutirão do povo. Que as bênçãos dessas águas e a força das comunidades proporcionem o início de um novo e promissor ciclo de solidariedade e luta na Bacia do Rio Pardo, formando uma poderosa rede de militantes em defesa das águas. É somente na organização do poder popular do campo e da cidade que conseguiremos reverter esta situação e garantir um Rio Pardo Vivo e Corrente!
Vitória da Conquista, 23 de novembro de 2025.
Assinam esse manifesto:
Articulação Rosalino Gomes de Povos e Comunidades Tradicionais do Norte de Minas
Associação Comunitária de Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos – Vitória da Conquista-BA
Associação de Agricultores Familiares da Comunidade de Quilombo de Thiagos – Ribeirão do Largo-BA
Associação de Desenvolvimento da Comunidade de Cachoeira – Ribeirão do Largo-BA
Associação de Moradores da Barra da Lagoa – Cândido Sales-BA
Associação de Moradores e Pequenos Produtores Rurais de Lagoa Verde – Cândido Sales-BA
Associação de Moradores e Pequenos Produtores Rurais de Mandacaru – Cândido Sales-BA
Associação de Moradores e Pequenos Produtores Rurais do Povoado do Espírito Santo – Cândido Sales-BA
Associação de Trabalhadores e Pequenos Produtores Rurais de Vila Corina – Encruzilhada-BA
Associacao dos Agricultores da Comunidade Rural da Água Vermelha – Itarantim-BA
Associação dos Pequenos Produtores do Vale do Mangerona – Encruzilhada-BA
Associação dos Produtores Rurais da Zona do Mandim de Cima – Itarantim-BA
Associação Mãe dos Extrativistas da Resex de Canavieiras-BA (AMEX)
Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM)
Centro de Estudos e Ação Social (Ceas)
Comissão de Ecologia Integral e Mineração da Arquidiocese de Vitória da Conquista-BA
Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Comissão Popular de Meio Ambiente de Encruzilhada-BA
Comissão Popular de Meio Ambiente de Itarantim-BA
Comunidade Tradicional Geraizeira de Sobrado-MG
Comunidades Azules – América Latina
Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente – Mascote-BA
Cooperativa dos Assentados, Acampados e Quilombolas do Sul da Bahia (Coopceta)
Frente dos Trabalhadores Livres (FTL)
Fundação Conquistense Edivanda Maria Teixeira – Vitória da Conquista-BA
Grupo Cultural Boi Estrela – Santa Luzia-BA
Grupo de Mulheres Crioulas do Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio – Vitória da Conquista-BA
Grupo de Pesquisa GeografAR/UFBA
HEKS/EPER
Movimento Articulado dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Alto Rio Pardo (Mastro)
Movimento de Luta pela Terra (MLT)
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
Movimento dos Trabalhadores Acampados, Assentados e Quilombolas da Bahia (Ceta)
Movimento Geraizeiro “Guardião do Cerrado”
Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)
Partido Socialismo e Liberdade (Psol/Camacã-BA)
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cândido Sales-BA
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Indaiabira-MG
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras-MG
Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Assalariados e Agricultores Familiares do Município de Rio Pardo de Minas-MG


