Encontro realizado pelo Ceas apontou a formação, a articulação e a organização popular como saídas para enfrentar a crise econômica e ambiental a nível local e global.
Comunidades camponesas e representações populares das regiões sudoeste e sul da Bahia se reuniram entre os dias 20 e 22 de março, em Vitória da Conquista, para a reunião de Avaliação e Planejamento do Programa Rural do Centro de Estudos e Ação Social (Ceas) para o ano de 2026. O encontro, realizado no Centro de Formação Derli Casales do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) reuniu representantes de diversos territórios em um momento de balanço das ações e definição dos próximos passos da atuação.
A atividade foi marcada pela análise da conjuntura e pelo debate sobre os desafios colocados para as classes trabalhadoras no campo e na cidade diante do avanço de projetos de exploração mineral e da intensificação das disputas sobre os bens naturais. A partir das experiências concretas nos territórios, as comunidades refletiram sobre como o cenário local está diretamente conectado a transformações mais amplas no plano internacional.

Desafios da conjuntura
A avaliação coletiva apontou que o atual momento é marcado pelo aprofundamento da crise do sistema capitalista, que tem levado o imperialismo a intensificar sua ofensiva global. Esse movimento busca garantir o controle sobre recursos estratégicos, como petróleo e minérios, além de manter a hegemonia do dólar e assegurar o domínio sobre cadeias produtivas fundamentais para a indústria bélica e o setor de energia.
Nesse contexto, países como Venezuela, Irã e Cuba têm sido alvo de ataques, especialmente por suas relações com China e Rússia e pelo papel que ocupam na disputa geopolítica internacional. Também foi destacada a centralidade da China no desenvolvimento tecnológico e na cadeia de suprimentos industriais e militares, especialmente no que diz respeito ao processamento de minerais estratégicos, como as terras raras.
No caso brasileiro, as comunidades apontam que o país tende a sofrer diretamente os impactos desse cenário. Com grandes reservas de petróleo e riqueza em minerais estratégicos, como nióbio, lítio e terras raras, o Brasil passa a ocupar um lugar estratégico nessa disputa, o que coloca em risco o modo de vida da população camponesa e a própria soberania brasileira.
A análise indica que esse processo pode se expressar em diferentes formas de pressão, como o avanço de interesses militares estrangeiros, tentativas de interferência nos processos políticos – incluindo as eleições de 2026 – e o aprofundamento da dependência econômica. Ao mesmo tempo, os efeitos da guerra já se fazem sentir no cotidiano da população, com o aumento dos preços de produtos essenciais para a vida econômica devido ao aumento do preço do petróleo.
No plano regional, o encontro destacou o crescimento das pesquisas e concessões minerárias no sudoeste e no sul da Bahia, voltadas principalmente para minerais considerados estratégicos. Esse avanço tem sido impulsionado por ações do próprio Estado, que atua no fomento à atividade mineral, ampliando a pressão sobre os territórios e colocando em risco áreas fundamentais para o abastecimento de água e para a reprodução da vida das comunidades.
Dados da Agência Nacional de Mineração (2026) revelam que cerca de 40% dos processos minerários sobre terras raras está no estado da Bahia, com requerimentos de lavra no sul da Bahia (Alcobaça, Itamaraju e Prado), além de autorizações de pesquisa de lítio e nióbio em Itambé, Cândido Sales, Encruzilhada, Ribeirão do Largo e Itarantim na região sudoeste.
Além da mineração, as comunidades relatam o crescimento do uso de drones para a pulverização de agrotóxicos nos territórios e a contaminação de corpos hídricos e de áreas utilizadas para a produção de alimentos, incluindo áreas em transição agroecológica.






Organização e articulação para resistir
Diante desse cenário, as comunidades reafirmaram a importância das iniciativas de resistência que vêm sendo construídas nos territórios. A criação de comissões populares de meio ambiente, o cercamento e a proteção de nascentes, a implantação de sistemas agroflorestais, a produção agroecológica e o fortalecimento da articulação comunitária foram apontados como caminhos concretos de enfrentamento, aliando a defesa territorial com a defesa ambiental e a formação política como eixo que conecta todas as ações.
Essas experiências demonstram que a organização popular segue sendo a principal ferramenta das comunidades e dos movimentos na defesa de seus territórios e na construção de alternativas ao modelo dominante.
Como síntese do encontro, foi destacado que a luta que está sendo travada nos territórios não pode ser realizada sem a compreensão da conjuntura global. A forma como a classe dominante organiza a economia e a vida, baseada na exploração predatória da natureza e na guerra como mecanismo de controle, tem produzido destruição ambiental, fome e aprofundamento das desigualdades. Diante disso, as comunidades reafirmaram a necessidade de construir, a partir da prática concreta, um novo projeto de sociedade que se contraponha a essa lógica.
“Nosso projeto não cabe nesse mundo”, sintetizaram participantes ao final da atividade, “por isso, é preciso forjar um mundo novo, com criatividade, coletividade e utopia.”





